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«O inconsciente e a linguagem desde uma novela Cervantina»

No discurso analítico, só se trata disso, o que se lê. Lacan, RSI, (1973)

A Jornada de hoje propõe que exploremos os conceitos fundamentais da psicanálise. Escolhi, então, abordar este que é nosso maior instrumento, o inconsciente. Nas páginas iniciais do Seminário 11, dedicado a examinar tais conceitos,  Lacan sugere ser absolutamente essencial retornar à origem se quisermos colocar a análise de pé. Então propõe que retornemos, que interroguemos como Freud colocou o inconsciente,  como porta de entrada, no campo da experiência. E, sabemos, esses conceitos somente tomam seu pleno sentido quando orientados num campo de linguagem.

O que ensinamos o sujeito a reconhecer como inconsciente é sua história, refere Lacan em Função e Campo da Fala e da Linguagem (1953), e é certamente esta assunção pelo sujeito de sua históriaenquanto que está constituída pela palavra dirigida ao outro (em tranferência) que forma o fundo, que fundamenta o método psicanalítico. 

Inspirada na idéia de explorar as questões da fala e da linguagem, retomei a leitura de o colóquio dos cachorros – Novela e Colóquio que houve entre Cipião e Berganza, de Cervantes, onde vemos colocado, logo de entrada, o valor da palavra, o valor dado à possibilidade de falar e dirigir sua história a um outro.

Nesta novela, os cães, supostamente em consequência de um ato de feitiçaria, recebem a condição de falar, e maravilhados com o fato, pretendem aproveitar todo o tempo possível para dizer um ao outro, todas as coisas que gostariam de contar.

Tomando em conta a possibilidade de falar, diz Berganza: …desde que tive forças, o bastante para roer um osso, tive desejo de falar para dizer coisas enterradas em minha memória, e ali, por antigas e muitas, ou mofavam ou eram esquecidas. Agora que descubro em mim, inesperadamente, esse dom da fala quero aproveitá-la para dizer aquilo de que consigo me lembrar...Cipião responde: Vamos fazer desta maneira, meu amigo: esta noite tu me contas a tua vida e as atribulações que te trouxeram ao ponto em que te encontras agora, e,se amanhã à noite ainda tivermos o poder da fala, eu te contarei a minha… (p. 427).

Não se trata, ao apresentar esta ilustração, de pensar numa equivalência do colóquio de Cipião e Berganza, com o discurso próprio ao procedimento analítico, mas de tomar o que Cervantes já antecipava, por aproximação, ao que para nós, é a regra fundamental da análise: falar.E através da fala retornar ao que Lacan coloca como essencial, retornar a origem.

Como diz Freud em O eu e o isso, a importância de falar não está na palavra isolada, senão na fala e seu poder transformador; e para além disso, no que, quando alguém fala, poderá escutar o que diz e incorporar a linguagem mais além do ato de emissão. Ao falarmos poderá nos ocorrer um lapsus de língua, e quando nos damos conta do lapsus, observamos ali uma sorte de despossesão, observamos ali uma falha do nosso domínio sobre o dito, antecipando a submissão a uma outra ordem, a ordem inconsciente. ( p21 e29)

A maneira particular, original de abordar a linguagem própria a descoberta freudiana, revela que ao falar dizemos mais do que pretendemos, ou que há um não saber no que se diz. Berganza desconfiando deste saber não sabido diz: não me espanto com o que falo, mas com o que deixo de falar.

Na Interpretação de Sonhos,  lemos que é na versão do texto que está o que importa, e que o sonho tem a estrutura de uma frase, e como tal, exige deciframento, sugerindo que na análise deveríamos atentar aos pontos onde as formas verbais se intercruzam (na forma de condensação e deslocamento), e que é  desde seus efeitos, na linguagem falada, que as formações do inconsciente  terão chance de ser decifradas.

No texto de Cervantes, vemos que os cães entendem que esse dom da fala ultrapassa os limites da natureza, e que na língua estão os maiores problemas da vida humana. Luiz Olyntho,  referindo-se a sobrenaturalidade humana, cita Hegel, apontando que tal qualidade está para o homem justamente pelo fato do homem ser dotado da palavra.  O homem fala pelo fato de o símbolo o ter feito homem, isto é, por ser constituído pela linguagem. O símbolo pode ser compreendido como a palavra, esta que tem função separadora, palavra que produz a separação entre a coisa e o objeto. Observamos o símbolo como marcas da cultura, fundamentalmente reconhecidas na história pelo modo como, desde os primeiros vestígios da humanidade, o homem tratou os restos fúnebres de seus mortos, nas sepulturas e suas inscrições, constituindo-se estes os primeiros traços da condição humana. O corpo humano, mesmo morto, permanece incorporado pelo simbólico.

Na novela, Cipião faz alusão às sepulturas de alabastro, onde costumam estar as figuras de um casal, marido e mulher, ali  enterrados, e próximo a elas a imagem de um cachorro, simbolizando que durante a vida o casal manteve laços de amizade e fidelidade.  Sabemos: é na relação do sujeito com a morte que se faz possível  a hominização.

Em  Função e Campo,  lemos que a linguagem é o ponto de partida para abordar o inconsciente, tomando em conta que os símbolos envolvem, com efeito, a vida do homem, com uma rede tão total, que conjugam, antes que ele venha ao mundo, aqueles que vão engendrá-lo …, trazem desde seu nascimento o desenho de seu destino…(p.143).

Vemos destacar-se aí a idéia de que entre o sujeito e sua constituição há uma relação prévia com o significante, quer dizer, o significante habita o sujeito antes que ele possa realizar qualquer atividade consciente no marco de sua vida social. É neste tempo, que Lacan retoma o que conhecemos como um de seus aforismas: ‘o inconsciente está estruturado como uma linguagem’.

E para enfatizar esta relação com o símbolo escreve: antes que se estabeleçam relações que são propriamente, humanas, certas relações já são determinadas. Elas se prendem a tudo que a natureza possa oferecer como suporte, suportes que se dispõem em temas de oposição. A natureza fornece, para dizer o termo, significantes, e esses organizam de modo natural as relações humanas, lhe dão estrutura e as modelam. (p. 26)

Quando Lacan diz que a natureza fornece os significantes, pretende, numa aproximação ao texto de Lévi-Strauss, apontar a idéia de que a função significante se faz por oposições, e que estas oposições encontram um suporte no mundo natural. Nossos conceitos devem sua existência a comparações. O mundo natural oferece oposições; dia-noite, claro-escuro, forte-fraco, presença-ausência…

 Com a idéia de que os significantes, que estão na natureza, ao tocar o sujeito, criam o campo inconsciente, vemos produzir-se um movimento de deslocamento do analista, desde uma concepção biológica da constituição do sujeito para um modelo estrutural. Saímos de uma possível ficção de um mundo natural originário, independente da linguagem, para conceber que é apenas do lugar da linguagem que podemos supor um mundo que lhe seja anterior, pois a linguagem não surge um dia, ela está aí desde o começo.

Apontando às questões de um mundo anterior, em sua conferência em Genebra (1975), Lacan sugere que o analista deva outorgar algum espaço para a formalização do primário, do ur, na análise. Considerando que haveria um engendramento fundacional, produzido antes que o analisante tenha a possibilidade de dirigir ao Outro a pergunta por seu desejo, sugerindo que o analista permita um espaço de formalização do primário, a estes acontecimentos fundacionais.

E seguindo  com associações ao texto de Cervantes, observamos que lá pelas tantas de sua fala, Berganza anuncia que falará o que já deveria ter falado, o que, se já tivesse dito, teria impedido o espanto com o fato dos cães  falarem. Lembra que esteve, certa ocasião com uma velha bruxa, e que está teria contado fatos sobre sua origem, fatos que remetiam à cena de seu nascimento. Reconstruindo a história diz que sua mãe foi uma mulher com poderes de feitiçaria, mas sofreu a inveja de uma outra, e numa luta por poderes de bruxaria, no momento do parto, sua mãe,  ajudada por esta outra bruxa teve seus dois bebês  tranformados em cachorros. Enfim, Berganza e Cipião tiveram mesmo uma vida de cachorro, e agora, nesses tempos, caso cumprissem a profecia, poderiam voltar a ser homens. E, uma vez que falavam,  pertencendo, a uma ordem de linguagem,  marcados pelo significante, poderiam reconstruir suas histórias.

Observamos que Cervantes apresenta nesse momento isso que parece ser a construção de um mito sobre a origem como  resposta a uma interrogação sobre o primário. Freud, em Da História de uma Neurose Infantil, apresenta o que nomeia como protofantasmas, os fantasmas fundamentais, universais. Cinco construções que respondem às questões sobre a origem e são reconhecíveis em todo o sujeito, independente do vivido em sua história sigular, guardando uma relação entre si. Remetem as seguintes questões e são assim nomeados repectivamente: Retorno ao seio materno, que remete à ameaça angustiante proveniente do desejo de um outro devorador; Sedução, que responde à pergunta, como se pode chegar a ser um sujeito sexuado?; Castração, para responder a questão: como ocorre a diferença sexual?; Cena primária, relativo a questão de como são gerados os bebês. E, por último, este que aproximamos ao relato de Berganza, e que tem como nome, novela familiar. novela familiar deriva de uma modalidade narcísica e remete não às perguntas sobre a origem em geral, mas às perguntas pela própria origem, ao surgimento de si. Construções nas quais o sujeito postula-se como filho de um casal que não é o que o criou, fantasmatizando uma história onde teria sido vítima de uma possível substituição no começo da vida.

Até este momento da teorização lacaniana, a estrutura da linguagem foi compreendida por uma associação binária de significantes, o que podemos  aproximar ao encadeamento da novela de Cervantes, onde vemos um conto que funciona dentro de outro conto, seis pequenos contos que se interligam, construindo a imagem de uma cena que remete a outra, e assim, por associação, a apresentação de uma série, de uma cadeia  de significantes.

Neste tempo da teorização, a  intervenção analítica, na escuta da associação entre um significante e outro, entre S1 e S2,  poderia levar a uma interpretação por produção de sentido, o analista poderia produzir, uma interpretação por acréscimo de sentido, produzindo um S3.

Entretanto, Lacan pretendendo caracterizar a materialidade do inconsciente, retira o Simbólico do lugar principal colocado até então, e diz que se existe um saber real e este seria da ordem da letra, estabelecendo uma relação entre o inconsciente e o real do sujeito, caracteriza um simbólico organizado por um Real. Esta nova posição,  impõe a idéia de que o que constitui o inconsciente é  a letra, e não o significante. Desde esta nova concepção, desloca a intervenção do analista deste efeito de acréscimo de sentido, para uma interveção do analista no intervalo da cadeia, para o lugar entre S1 e S2, morada do objeto a.

Então, nesse momento da teorização, para entendermos o inconsciente estruturado como uma linguagem, teremos que considerar que a estrutura da linguagem só se revela no escrito, na leitura de uma escritura. A escrita pode ser entendida como um discurso sem palavras, um outro nome para o gozo. Ao tomar a linguagem fundada na escrita, como marca da letra, transformou a prática da análise em leitura. Assim que, em 1973, Lacan afirmava: no discurso analítico, só se trata disso, o que se lê, o a.

Maristela Costa Leivas

Segundas Jornadas de la Red Lacaniana de Psicoanálisis 14 de abril de 2018.

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